Durante décadas, os cientistas têm subestimado significativamente a verdadeira altura do oceano em muitas regiões do mundo, um erro de cálculo crítico que afecta as infra-estruturas costeiras, as avaliações de perigos e a segurança de milhões de pessoas. Um novo estudo publicado na Nature revela que as estimativas convencionais do nível do mar são, em média, 30 centímetros abaixo do nível do mar, com erros superiores a 90 centímetros em algumas áreas. Isto não é apenas um descuido acadêmico; tem consequências no mundo real sobre a forma como construímos, seguramos e nos preparamos para o inevitável aumento do nível do mar impulsionado pelas alterações climáticas.
A ameaça silenciosa às economias costeiras
Mais de 10% da população mundial vive num raio de cinco quilómetros da costa e as regiões costeiras contribuem enormemente para a economia global – só nos EUA, geram um terço do PIB. A subida do nível do mar, que já regista um aumento médio de 9 polegadas desde 1880, ameaça estas populações e economias. O novo estudo demonstra que o perigo é ainda mais agudo do que se pensava anteriormente.
A subestimação dos níveis do mar é particularmente preocupante porque os mapas de risco utilizados para o planeamento urbano, infra-estruturas de protecção e cobertura de seguros dependem de medições precisas. Se estas estimativas forem falhas, então as nossas defesas costeiras e avaliações de risco também o são, deixando potencialmente as comunidades despreparadas para futuros desastres.
Por que as medições estavam erradas? Um modelo simplificado
O cerne do problema reside na forma como os níveis do mar são medidos. Ao contrário de simplesmente usar uma régua no oceano, os cientistas tradicionalmente confiam em modelos simplificados chamados “geóides”. Estes modelos simulam como os oceanos se acomodariam sob a gravidade e a rotação da Terra, ignorando factores cruciais como correntes, ventos e variações na densidade da água. Embora esta simplificação facilite os cálculos, introduz erros significativos quando aplicada a regiões costeiras específicas.
Os investigadores Katharina Seeger e Philip Minderhoud notaram, de forma independente, discrepâncias no seu trabalho de campo em Myanmar e no Vietname, respetivamente. Eles descobriram que os níveis reais do mar eram muito mais elevados do que o previsto pelos cálculos geóides padrão, o que levou a uma investigação mais ampla. O estudo analisou 385 artigos revisados por pares e descobriu que mais de 90% das avaliações de perigos costeiros subestimaram os níveis do mar devido à dependência de dados geóides não corrigidos.
Os maiores erros estão concentrados em regiões pouco estudadas, como o Sudeste Asiático e o Indo-Pacífico, onde nações insulares densamente povoadas estão desproporcionalmente expostas. Isto significa que milhões de pessoas estão em risco a mais do que o estimado anteriormente.
O caminho a seguir: são necessárias medições mais precisas
A boa notícia é que corrigir esses erros pode ser relativamente simples. A atualização dos cálculos de perigo com medições locais precisas do nível do mar poderia melhorar significativamente as avaliações de risco. No entanto, isto requer mais recolha de dados no terreno, especialmente em regiões onde as medições são escassas.
A urgência é clara. Mesmo que as emissões de carbono sejam drasticamente reduzidas, o nível do mar continuará a subir devido aos gases com efeito de estufa já emitidos. As conclusões do estudo destacam que estamos a basear-nos em informações imperfeitas e que subestimar o risco pode ter consequências devastadoras.
Os sistemas humanos se adaptarão, mas os dados são cruciais
Em última análise, o futuro das comunidades costeiras depende não apenas do rigor científico, mas também da adaptação humana. As sociedades podem retirar-se de áreas vulneráveis, construir barreiras de protecção ou ajustar apólices de seguro. O estudo sublinha que dados de boa qualidade são cruciais para uma tomada de decisão informada, especialmente nas regiões mais pobres e mais populosas, onde os recursos de adaptação são limitados.
O erro de cálculo do nível do mar é um lembrete claro de que decisões de milhares de milhões de dólares estão a ser tomadas com base em informações imperfeitas. Medições precisas são essenciais para evitar subestimar o perigo e garantir que as comunidades costeiras possam preparar-se para os desafios inevitáveis que se avizinham.
